MUQUÉM 2026: Procissão luminosa, missa solene com participação de Daniel Vilela e reflexão sobre a fé marcam encerramento da 278ª Romaria do Muquém

Procissão luminosa em Muquém, registro do fotógrafo Marco Túlio. (Foto: Marcos Filmes)

Niquelândia News/Gilmar Alves

Chegou ao fim, neste sábado (15), a 278ª edição da Romaria de Nossa Senhora da Abadia do Muquém, uma das mais tradicionais manifestações de fé de Goiás. Realizada no distrito de Muquém, em Niquelândia, a celebração reúne, há 278 anos, milhares de fiéis em uma demonstração de devoção, fé e tradição.

(Foto: Marcos Filmes)

O encerramento foi marcado por uma grande procissão luminosa, realizada às 18 horas, reunindo os devotos nas últimas horas da programação religiosa.

Mais cedo, uma missa solene em homenagem a Nossa Senhora da Abadia, Padroeira de Goiás, reuniu autoridades e milhares de fiéis no Santuário. A celebração contou com a presença do governador de Goiás, Daniel Vilela, da primeira-dama Iara Netto, da presidente de honra da OVG, Gracinha Caiado, além de outras autoridades.

Governador de Goiás, Daniel Vilela, da primeira-dama Iara Netto, da presidente de honra da OVG, Gracinha Caiado. (Foto: Marcos Filmes)

O reitor do Santuário, Padre Cornélio, recebeu o governador e as demais autoridades durante a celebração.

Governo de Goiás instala simbolicamente sua sede no Muquém

O dia 15 de agosto também foi marcado pela instalação simbólica da sede do Governo de Goiás no distrito de Muquém. A medida, criada por lei sancionada em 2025, levou a representação do Palácio Pedro Ludovico Teixeira para o povoado de Niquelândia durante o último dia da Romaria.

Instalação simbólica da sede do Governo de Goiás no Muquém. (Foto: Marcos Filmes)

A iniciativa reconhece oficialmente a importância da Romaria do Muquém como uma manifestação permanente da fé e da cultura religiosa de Goiás.

Dom Giovani destaca significado da caminhada dos romeiros

Durante a celebração de encerramento, o bispo de Uruaçu, Dom Giovani Carlos Caldas Barroca, realizou uma homilia de aproximadamente 20 minutos, propondo aos fiéis uma reflexão sobre o verdadeiro significado da peregrinação ao Muquém.

Todos os anos, milhares de pessoas percorrem aproximadamente 45 quilômetros, em uma caminhada que pode durar cerca de 12 horas, entre a Paróquia Nossa Senhora da Abadia, na região central de Niquelândia, e o Santuário do Muquém. A peregrinação marca tradicionalmente a abertura dos festejos, entre a noite do dia 5 e a madrugada do dia 6 de agosto.

Dom Giovanni Carlos, bispo da Diocese de Uruaçu, durante sua homiliia no Santuário do Muquém (Foto: Patrícia Bastos/Excelência Notícias)

Para Dom Giovani, entretanto, a caminhada não deve ser vista apenas como um deslocamento físico. Segundo o bispo, o percurso representa também uma jornada espiritual de transformação e aproximação com Deus.

Ao falar sobre Maria como modelo para os cristãos, Dom Giovani afirmou que o romeiro deve voltar para casa levando mais do que lembranças da peregrinação ou os pedidos apresentados durante a Romaria.

“O romeiro autêntico é aquele que não só caminha rumo ao Muquém, mas caminha rumo ao céu.”

O bispo também destacou que a devoção a Nossa Senhora da Abadia deve inspirar os fiéis a seguir seus exemplos, especialmente a humildade e a disposição para cumprir a vontade de Deus.

“O romeiro é aquele que admira Maria, mas também não só isso: é também aquele que segue, que imita Maria.”

Durante a homilia, Dom Giovani lembrou ainda que muitos peregrinos chegam ao Muquém carregando pedidos relacionados a familiares, pessoas enfermas e dificuldades pessoais.

(Foto: Marcos Filmes)

Para ele, pedir a intercessão de Nossa Senhora faz parte da fé, mas a peregrinação não termina quando um pedido é atendido.

“Pedir é importante, mas não é tudo.”

A mensagem central deixada pelo bispo foi a de que a verdadeira Romaria precisa produzir mudanças na vida do peregrino. A Palavra de Deus, segundo Dom Giovani, deve acompanhar o fiel depois que ele deixa o Santuário e orientar suas escolhas, pensamentos e atitudes.

Padre Cornélio agradece ao prefeito e à primeira-dama

Durante o encerramento, o reitor do Santuário, Padre Cornélio, também manifestou sua gratidão ao prefeito de Niquelândia, Eduardo Moreira, e à primeira-dama, Cláudia Moreira, pelo apoio e pela parceria durante a realização da Romaria.

Gracinha Caiado, Eduardo Moreira e Claudia, aromaria. (Foto: Marcos Filmes)

“Obrigado por caminharem conosco”, afirmou o sacerdote.

Santuário recebe multidão e padre pede apoio dos romeiros

O crescimento da Romaria do Muquém também ganhou destaque na fala de Padre Cornélio. O sacerdote aproveitou o encerramento para pedir o apoio dos próprios romeiros na manutenção da estrutura do Santuário da Casa da Mãe Abadia durante todo o ano.

Segundo o reitor, quase 300 mil pessoas haviam entrado no Santuário do Muquém para rezar durante a Romaria deste ano. Considerando também a circulação de pessoas nas áreas de acampamento e no comércio popular, a estimativa é de que o público total tenha ultrapassado 600 mil pessoas ao longo dos dez dias de programação.

Diante dessa dimensão, Padre Cornélio explicou que a manutenção do Santuário durante o restante do ano, incluindo despesas com funcionários, não pode depender exclusivamente da arrecadação obtida durante o período da Romaria.

(Foto: Reprodução/Marcos Filmes)

O sacerdote pediu aos devotos que contribuam com a Família dos Romeiros, programa que atualmente reúne quase 5 mil inscritos. Segundo ele, porém, menos de 300 pessoas mantêm contribuições regulares.

Padre Cornélio também destacou o Sorteio Solidário, lançado há cerca de três meses pela Casa da Mãe Abadia, com contribuição de R$ 10. A iniciativa oferece mais de R$ 100 mil em prêmios, incluindo um Fiat Mobi zero-quilômetro, uma moto elétrica e um iPhone.

Além do apoio financeiro, o reitor reforçou um pedido relacionado à preservação do espaço: que os romeiros também façam sua parte na limpeza e conservação das áreas de acampamento.

Uma tradição que atravessa gerações

Com o encerramento da programação, a Romaria do Muquém chega ao fim de mais uma edição deixando como marca a fé de milhares de peregrinos, a tradição religiosa e a mobilização de toda a estrutura do distrito de Muquém.

Após 278 anos, a caminhada dos romeiros continua sendo um dos principais símbolos da devoção a Nossa Senhora da Abadia em Goiás, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e transforma o Muquém, todos os anos, em um dos maiores pontos de peregrinação religiosa do Estado.

ORIGEM DA ROMARIA DE NOSSA SENHORA D’ABADIA DO MUQUÉM

Como e quando surgiu a devoção e a romaria? Há várias versões que narram à devoção a Nossa Senhora d´Abadia do Muquém. A litero-lendária versão do romancista e juiz da Comarca de Catalão-GO, é de Bernardo Guimarães. Em Ermitão do Muquém (1858), Bernardo narra a origem a partir de Gonçalo e salvo por um medalhão de Nossa Senhora veio morar no Muquém de Goiás. Ali, se tornou um ermitão. A historiadora Megale (1997), fala do surgimento de um quilombo nas Serras do Muquém. Os escravos foragidos das minas auríferas de Cocal, Água Quente, Traíras e São José do Tocantins, formaram o Quilombo do Muquém. Uma companhia de homens armados e liderados por um capitão de mato capturou os quilombolas e mandou construir no local uma capelinha em homenagem ao santo do dia, São Tomé Apóstolo.

Os bispos da Diocese de Uruaçu-GO, Dom Francisco Prada Carrijo (1978) e Dom José Silva Chaves (2003) relatam, com a chegada de novos aventureiros ao Arraial do Muquém, um homem vindo de Portugal instalou-se na região em busca de ouro. E, em tal aperto, caso fosse livre da acusação, prometeu buscar de Portugal a imagem de Nossa Senhora e depositá-la na capelinha do Arraial. O português tendo recebido o milagre, cumpriu o seu voto. O padre Daniel da Silva Rocha, vigário de São José do Tocantins (atual Niquelândia-GO) e responsável pela romaria nos anos 1859 a 1872, escreve uma carta informando o bispo de Goiás, Dom Joaquim Gonçalves Azevedo (1867). O reverendo escreve que a imagem de Nossa Senhora chegou ao Muquém em 1748, fora trazida pelo português Antônio Antunes de Carvalho e acompanhada por famílias e escravos, procedentes da Bahia.


O romeiro Nicanor Azevedo (2018) guarda à tradição oral. Ele fala que nas Matas do Muquém morava um velho ermitão. Este homem vinha à Freguesia de São José do Tocantins e sempre trazia uma botija de água e outra de ouro. O velho piedoso rezava e benzia os doentes com a água do Córrego do Muquém e ficavam curados. O ouro era distribuído aos pobres. Os moradores curiosos por saberem quem era e onde morava, certa vez, seguiram o homem até chegar as Matas do Muquém. Ali, encontraram uma capelinha simples e o medalhão com a imagem de Nossa Senhora. Há contos, romeiros narram que a imagem de Nossa Senhora fora achada nas Serras do Muquém, e que ao levarem para à cidade, ela retornava ao local da gruta.

As versões apresentadas não se contradizem, mas sim, se convergem e se complementam de informações lendárias, históricas, geográficas, culturais, folclóricas e religiosas e ajudam a entender a origem da devoção a Nossa Senhora d´Abadia no Sertão de Goiás.

Por que o nome Nossa Senhora d´Abadia do Muquém? O iniciador da devoção foi o português Antônio Antunes de Carvalho. Ele fez o voto de que se fosse livre de tal situação da qual fora acusado à Corte Portuguesa, viajaria a sua terra natal. Lá, no norte de Portugal, ele adquiriu uma imagem no Mosteiro de Nossa Senhora d´Abadia de Bouros. Abadia, significa que o superior e responsável pelos monges era o Abade. Antônio adquiriu a imagem de Nossa Senhora, atravessou o Oceano Atlântico em transporte de barco à vela e aportou em São Salvador da Bahia de Todos os Santos (atual Salvador-BA). De Salvador viajou pelo interior da Bahia, percorreu o Caminho dos Currais do Vale de São Francisco, conhecida Estrada Geral do Sertão até o Arraial dos Couros (atual Formosa-GO) no Planalto Central. A comitiva de Antônio chegou ao Arraial do Muquem em 1748. A imagem Nossa Senhora d´Abadia fora colocada na Capelinha de São Tomé como pagamento do voto. Muquém, representa uma técnica indígena, ou seja, uma grelha feita de varas para assar carne sobre o braseiro.

O brigadeiro Cunhas Mattos em Chorographia Histórica da Provincia de Goyaz (1824) narra, para este lugar sagrado e significativo de fé, milagres, curas e benção acorreram milhares de pessoas. Eram sozinhas ou em grupos, elas vinham dos recantos mais afastado não só da Província de Goiás, mas das províncias de Minas Gerais, Mato Grosso, São Paulo, Bahia, Pará e Maranhão. A fama se espalhou e o Muquém tornou-se o centro popular de devoção, peregrinação e romaria e anualmente, festejada no dia 15 de agosto. Ai, surge a religião popular em torno da devoção a Nossa Senhora d´Abadia, uma expressão do catolicismo tradicional e popular. A devoção nasce do cumprimento do voto de Antônio Antunes de Carvalho; nasce das buscas, práticas e experiências religiosas do povo, predominantemente, dos leigos e das leigas; nasce dos dirigentes eclesiásticos, diáconos, sacerdotes e bispos, promovem os atos de culto, liturgia e controle do que a Igreja Católica considerava sagrado, inadequado ou profano.

A devoção Nossa Senhora d´Abadia do Muquém localiza-se, especificamente, na região do Centro Oeste Brasileiro e Planalto Central e faz-se presente em diversos Estados do Brasil e em países onde existem brasileiros devotos. Onde realiza-se a romaria? Ao contrário das romarias urbanas, a romaria acontece no meio rural à 45 quilômetros da cidade de Niquelândia-GO. O ponto fixo da romaria é o Santuário. A romaria constrói uma cidade temporária na região rural do Muquém, um fluxo populacional acima de 400 mil pessoas. A romaria realiza-se num ecossistema histórico, social, cultural, simbólico e religioso.

Quando e onde surgiram as romarias cristãs? Elas surgiram quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano no século IV. O romeiro refere-se uma pessoa que viajava a cidade de Roma para visitar o tumulo dos mártires Pedro e Paulo e outros Santos, martirizados no século I do Cristianismo. Daí surgiram os termos “romaria” e “romeiro”. A “peregrinação” vem do termo “peregrino”, significa uma pessoa que viajava para longe de casa com motivos religiosos. Portanto, os termos romeiro e peregrino expressam os mesmos ideais de busca, sentido, mística e experiência religiosa a um lugar sagrado ou santuário. Desta forma, quando se diz “Romeiro do Muquém”, refere-se àquela pessoa que vem ao lugar sagrado (santuário) e vivencia as práticas religiosas. Existem inúmeras motivações para o romeiro entrar na geografia sagrada do santuário e da romaria, e junto a estas motivações, existem uma infinitude de desejos, satisfações, participação e justificativas. Por certo e talvez, os romeiros não vêm ao Muquém somente pela devoção ou pelo sagrado, mas sim são motivados por expectativas sociais, familiares, culturais, políticas, econômicas, turísticas e tantas outras que dão sentidos diferentes à sua participação na romaria e à permanência na festa da padroeira.

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